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LER/DORT


   As Lesões por Esforços Repetitivos (LER), também encontradas sob a nomenclatura de Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT) podem ser definidas como danos e/ou sofrimentos teciduais oriundos de um trauma físico. Esses, por sua vez, acometem preferencialmente os membros superiores, incluindo a região cervical, tendo origem necessariamente ocupacional, decorrente do uso abusivo e incorreto de grupos musculares.

   Na realidade, as LER/DORT representam um conjunto heterogêneo de afecções do sistema músculo-esquelético que estão relacionadas ao ambiente de trabalho. 

   Diferentemente do que ocorre com doenças não ocupacionais, as doenças relacionadas ao trabalho têm implicações legais que atingem a vida dos pacientes. O seu reconhecimento é regido por normas e legislações específicas a fim de garantir a saúde e os direitos do trabalhador.

   Contudo, a LER/DORT representa uma síndrome de dor nos segmentos do corpo, com queixa de incapacidade funcional causada por movimentos repetitivos ou por posturas forçadas. Também é conhecido por LTC (Lesão por Trauma Cumulativo), mas há quem defenda que o termo mais correto a ser usado, tecnicamente, seria o de Síndrome da dor regional de origem ocupacional.

   Os sociólogos e psicólogos acreditam que as LER/DORT’s sejam manifestações somáticas das aflições dos tempos atuais, uma espécie de histeria coletiva desencadeada pela organização do trabalho moderno, em pessoas com perfil emocional susceptível. Em contrapartida, os estudos anotomofisiologicos permitem caracterizar a LER/DORT como um processo inflamatório oriundo de atritos entre estruturas ósseas, musculares, tendíneas, nervosas e do tecido conjuntivo que lhe dá sustentação em decorrência de solicitações cumulativas excessivas e repetitivas de um segmento do corpo.

 

 

LER/ DORT: Ocorrências no decorrer da história 

 

   Essas lesões inflamatórias causadas por esforços repetitivos têm origens antigas. Restos de esqueletos dos primeiros seres humanos mostram evidência de artrite e de fraturas, sugerindo que, em nenhuma época, o homem esteve livre dos efeitos das lesões. 

   Desde a antiguidade, observações e estudos eram feitos no sentido de qualificar as lesões ocupacionais. A exemplo disso temos os estudos  científicos realizados por Bernardino Ramazzini (considerado em 1713 como pai da medicina ocupacional) o qual nomeou, inicialmente, as lesões por esforço repetitivo como “Doença dos Escribas”. Já em 1891, Fritz De Quervain descrevia o inchaço do tendão provocado por movimentos de torcer tecidos como  “Entorse das Lavadeiras”.

   Apesar da existência das LER antes do início da evolução Industrial, somente depois de 1980 a expressão ‘lesões por esforços repetitivos’ foi criada. Aconteceu na Austrália, após uma aparente epidemia de problemas musculares e ósseos entre funcionários de escritórios. A incidência de pessoas que se queixavam de dores, formigamentos e sensibilidade nos membros superiores começou a  crescer de maneira dramática por volta de 1981, passando de um a nove pacientes por dez mil para seis novos pacientes a cada mil trabalhadores em 1987.

   Essas lesões ocupacionais acometem pessoas jovens, no auge de sua produtividade e experiência profissional, com sua maior incidência na faixa etária de 30 a 40 anos, principalmente as do sexo feminino, que executam tarefas que exigem motivação contínua dos braços e das mãos, ou que se colocam em posturas inadequadas por um período de tempo prolongado.

   As ocorrências de LER/DORT em algumas categorias profissionais tem relação com os estudos científicos de Armstrong, no qual demonstraram que o risco de tendinite de mãos e punhos em pessoas que executam atividades repetitivas e forçadas é vinte e nove vezes maior do que em pessoas que executam tarefas lentas, pouco repetitivas e forçadas.

   Apesar de quase duas décadas de estudo, essa síndrome continua sendo o maior e o mais freqüente problema das extremidades superiores relativo ao trabalho.

   No Brasil, a LER/DORT representa a segunda causa de afastamento do trabalho, notificando-se 532.434 CATs (Comunicação de Acidentes de Trabalho), sem contar os trabalhadores que pleiteiam na Justiça o reconhecimento do nexo causal, em milhares de ações movidas em todo o País. A cada cem trabalhadores na região Sudeste, por exemplo, um é portador de Lesão por Esforços Repetitivos, isso segundo o estudo do economista José Pastore, da Universidade de São Paulo.

 

 

Breve fisiopatologia das lesões por esforço repetitivo 

 

   Levando em consideração que a amplitude de um movimento depende basicamente da integridade da(s) articulação(ões) envolvida, e que a mesma é estruturada internamente por ligamentos, sinóvias e cápsula articular, e externamente por tendões, músculos, fascias e nervos, acredita-se que essa região é responsável por grande parte das cargas oriundas da movimentação/ atividades de vida diária.  

   O principio da homeostase corporal, com enfoque músculo-articular, é de suma relevância para compreensão da fisiopatologia das LER/DORT’s. Entretanto, de forma sucinta, pode-se entender que essas lesões ocorrem da seguinte maneira:

  • No exercício ativo, a diferença entre as magnitudes das cargas musculares é o que promove o movimento correto. Os músculos sinergistas agem a favor do movimento desejado, enquanto os antagonistas realizam trabalho excêntrico para “freiar” o movimento, impedindo que haja uma atividade incontrolada e danosa. O equilíbrio entre a ação muscular sinergista (força positiva) e a antagonista (força negativa) resultam num somatório de forças cujo resultado é a neutralidade do movimento, ou ainda estabilidade articular.
  • Posto que há desequilíbrios entre os grupos musculares controladores e “efetuadores” do movimento (essa é uma situação relativamente comum entre indivíduos com diagnóstico de “bursites”  e  “tendinites” de membro superior), a amplitude das forças envolvidas promovem alterações importantes nos tendões e cápsulas articulares que por sua vez, podem sofrer lesões decorrentes dos esforços adicionais a que são submetidos.

 

 

Sintomas da LER/DORT 

 

   Geralmente os sintomas são de evolução insidiosa até serem claramente percebidos. Com freqüência, são desencadeados ou agravados após períodos de maior quantidade de trabalho ou jornadas prolongadas e em geral, o trabalhador busca formas de manter o desenvolvimento de seu trabalho, mesmo que à custa de dor. A diminuição da capacidade física passa a ser percebida no trabalho e fora dele, nas atividades cotidianas.

   As queixas mais comuns do portador de LER - DORT são:

  • Dor localizada, irradiada ou generalizada;
  • Desconforto;
  • Fadiga;
  • Sensação de peso;
  • Formigamento;
  • Dormência;
  • Sensação de diminuição de força;
  • Inchaço;
  • Enrijecimento muscular;
  • Choques nos membros;
  • Falta de firmeza nas mãos.

   Nos casos mais crônicos e graves, pode ocorrer:

  • Sudorese excessiva nas mãos;
  • Alodínea (sensação de dor como resposta a estímulos não nocivos em pele normal).

 

 

Causas da LER/DORT

 

   A LER ou DORT são as manifestações de lesões decorrentes da utilização excessiva, imposta ao sistema músculo-esquelético, e da falta de tempo para recuperação. Lesões neuro-ortopédicas como as tendinites, sinovites, compressões de nervos periféricos podem ser identificadas ou não.

   Os fatores de risco não são necessariamente as causas diretas das LER - DORT, mas podem gerar respostas que produzem as LER – DORT. Os fatores de risco não são independentes, interagem entre si e devem ser sempre analisados de forma integrada. Envolvem aspectos biomecânicos, cognitivos, sensoriais, afetivos e de organização do trabalho.

   Os fatores incluem:

  • Posto de trabalho que force o trabalhador a adotar posturas, a suportar certas cargas e a se comportar de forma a causar ou agravar afecções músculo-esqueléticas;
  • Exposição a vibrações de corpo inteiro, ou do membro superior, podem causar efeitos vasculares, musculares e neurológicos;
  • Exposição ao frio pode ter efeito direto sobre o tecido exposto e indireto pelo uso de equipamentos de proteção individual contra baixas temperaturas (ex. luvas);
  • Exposição a ruído elevado, entre outros efeitos pode produzir mudanças de comportamento;
  • Pressão mecânica localizada provocada pelo contato físico de cantos retos ou pontiagudos de objetos, ferramentas e móveis com tecidos moles de segmentos anatômicos e trajetos nervosos provocando compressões de estruturas moles do sistema músculo-esquelético;
  • Posturas. As posturas que podem causar LER/DORT possuem três características que podem estar presentes simultaneamente:
    • Posturas extremas que podem forçar os limites da amplitude das articulações;
    • Força da gravidade impondo aumento de carga sobre os músculos e outros tecidos;
    • Posturas que modificam a geometria músculo-esquelética e podem gerar estresse sobre tendões, músculos e outros tecidos e/ou reduzir a tolerância dos tecidos.
    • Carga mecânica músculo-esquelética. Entre os fatores que influenciam a carga músculo-esquelética, encontramos: a força, a repetitividade, a duração da carga, o tipo de preensão, a postura e o método de trabalho. A carga músculo-esquelética pode ser entendida como a carga mecânica exercida sobre seus tecidos e inclui:
      • Tensão (ex.: tensão do bíceps);
      • Pressão (ex.: pressão sobre o canal do carpo);
      • Fricção (ex.: fricção de um tendão sobre a sua bainha);
      • Irritação (ex.: irritação de um nervo).

 

 

Diagnóstico da LER/DORT


   Para realizar o diagnóstico da LER/DORT, busca-se dados por meio da história clínica, levando em consideração as atividades realizadas pela pessoa tanto no trabalho, quanto no lazer. Em seguida realiza um exame físico geral, dedicando especial atenção aos locais afetados.

   Exames complementares podem ser solicitados para esclarecer o diagnóstico, incluindo:

  • Radiografias;
  • Ecografias;
  • Eletroneuromiografia;
  • Ressonância magnética;
  • Exames laboratoriais para condições reumáticas, dentre outros.

 

 

Tratamento da LER/DORT

 

   O tratamento da LER/DORT têm início após um diagnosticado correto e deve buscar uma abordagem integrada, ao invés de tratar somente a sintomatologia:

  • Medidas ergonômicas visam à melhoria do espaço físico e dinâmico de trabalho que não induzam ao desenvolvimento da LER/DORT. Por vezes, pequenas adaptações fazem grandes diferenças. As pausas programadas podem ser consideradas atitudes ergonômicas benéficas;
  • Exercícios físicos são benéficos e incluem tanto exercícios aeróbicos, como exercícios de alongamento;
  • Fisioterapia é muitas vezes empregada na redução da dor e na recuperação da função e dos movimentos do membro afetado pela LER/DORT;
  • Medicamentos antiinflamatórios e analgésicos são utilizados para alívio da dor aguda e crônica da LER/DORT. Devem ser utilizados com cautela e sob recomendação médica;
  • Medicamentos corticóides são antiinflamatórios mais potentes, porém com mais efeitos colaterais, merecendo atenção médica redobrada;
  • Medicamentos antidepressivos e outros agentes com ação no sistema nervoso central são utilizados em quadros de dores crônicas provocadas pela LER/DORT ou quando associadas a sintomas de humor e/ou ansiedade;
  • Intervenção cirúrgica é indicada para casos associados a mal formações e deformidades ósteo-musculares irreversíveis ao tratamento medicamentoso.

 

 

Prevenção da LER/DORT


  • Identifique tarefas, ferramentas ou situações que causam dor ou desconforto e converse sobre elas com os profissionais da Comissão de Saúde Ocupacional e com sua chefia;
  • Faça revezamento nas tarefas;
  • Procure aprender outras tarefas que exijam outros tipos de movimento;
  • Faça pausas obrigatórias de 10 minutos a cada 50 minutos trabalhados, evitando ultrapassar 6 horas de trabalho diário de digitação;
  • Auxilie na identificação das posições incorretas e forçadas no trabalho. Ao mesmo tempo, procure dar sugestões sobre o que fazer;
  • Informe claramente à sua chefia quando o tempo determinado para realizar uma tarefa for reduzido;
  • Diante dos sintomas de dor ou formigamento nos membros superiores, procure um médico;
  • Procure conhecer os recursos de conforto do seu posto de trabalho;
  • Procure adotar as posturas corretas;
  • Levante-se de tempos em tempos, ande um pouco, espreguice-se, faça movimentos contrários àqueles da tarefa. 

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